Educação

Pesquisas em Ciências Farmacêuticas da UEPB geram novos pedidos de patentes

Mais uma vez, em um curto espaço de tempo, a Coordenadoria de Inovação Tecnológica (Inovatec) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) solicitou outras duas patentes provenientes de pesquisas advindas do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas (PPGCF) da Instituição. Os pedidos foram requeridos ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) pelas inovações referentes às “Composições sinérgicas de óleo essencial de Croton conduplicatus e antibióticos beta-lactâmicos e uso das composições” e ao “Sistema Híbrido Nanoestruturado de Papaína e Nanoargila Sintética”.

A pesquisa com Croton conduplicatus foi realizada pelo professor do PPGCF, Harley da Silva Alves; pela técnica do Laboratório de Análises Clínicas (LAC), do Centro de Ciencias Biológicas e da Saúde (CCBS), Wilma Raianny Vieira da Rocha; pelo pós-doutorando da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), José Filipe Bacalhau Rodrigues; e pelo mestrando do PPGCF, Genil Dantas de Oliveira. O pedido de patente foi protocolado no INPI sob o número: BR102023015435-2. O estudo destaca-se por abordar a resistência de cepas de Staphylococcus aureus a antibióticos betalactâmicos, um problema de saúde pública global.

Com a descoberta de composições sinérgicas de óleo essencial de Croton conduplicatus em conjunto com antibióticos betalactâmicos, os resultados promissores mostram a reversão da resistência e a melhora da ação em Staphylococcus aureus sensível à meticilina. Além disso, a pesquisa aponta para atividade antibiofilme diante das cepas de da mesma bactéria sensíveis e resistentes à meticilina. Essa inovação pode ser um divisor de águas no tratamento de infecções resistentes a antibióticos, impactando positivamente a saúde da população.

Croton conduplicatus, conhecido popularmente como quebra-faca, quebra-facão ou cordeiro, é um arbusto abundante na caatinga na região Nordeste. Os betalactâmicos são uma ampla classe de antibióticos, que inclui os carbapenens, penicilinas, monobactâmicos e as cefalosporinas, sendo a mais utilizada nos dias de hoje. Staphylococcus aureus é a bactéria mais perigosa de todas entre as bactérias estafilocócicas mais comuns. Essas bactérias frequentemente causam infecções cutâneas, mas podem causar pneumonia, infecções da válvula cardíaca e infecções ósseas e podem ser resistentes ao tratamento com certos antibióticos.

Segundo Wilma Raianny, farmacêutica, doutora em Ciências Farmacêuticas e técnica do LAC, a pesquisa começou com a ideia do aluno de mestrado do PPGCF, Genil Dantas, também autor da patente, de testar o óleo essencial da planta Croton conduplicatus, que ainda não havia sido estudada deste modo, com o intuito de verificar a atividade diante de microrganismos patogênicos.

“Fizemos a parceria e iniciamos os testes juntamente com o professor Harley e José Filipe Bacalhau, do Laboratório de Avaliação e Desenvolvimento de Biomateriais do Nordeste (Certbio), da UFCG. “A concepção da ideia da pesquisa aconteceu no começo de 2022 e já em meados do mesmo ano, tínhamos resultados promissores de atividade diante de cepas de Staphylococcus aureus, incluindo cepas resistentes a antibióticos convencionais”, explicou Wilma. No final de 2022, os pesquisadores apresentaram os resultados da pesquisa em um evento internacional que ocorreu em Brasília e publicaram artigo sobre a pesquisa em uma revista científica de alto impacto, que pode ser lido aqui.

A pesquisadora disse que a patente não era o que a equipe tinha em mente inicialmente, e sim a capacidade antimicrobiana do óleo essencial, que inclusive é sua área de pesquisa já há alguns anos. “Mas como percebemos a potencialidade de ação diante de cepas resistentes à meticilina de Staphylococcus aureus, revertendo essa resistência a antibióticos betalactâmicos e ainda com grande potencial de atividade antibiofilme do óleo essencial isolado e em combinação com antibióticos de uso convencional, percebemos a importância de proteger essa descoberta, com intuito de produzir futuras formas farmacêuticas para o tratamento de infecções causadas por estes microrganismos, uma vez que a resistência bacteriana atualmente é um problema sério de saúde ao redor do mundo”, relatou.

A planta foi escolhida pelo interesse do grupo de pesquisa em estudar as plantas endêmicas da região da caatinga, assim se enquadrando as plantas do gênero Croton. Ao constatarem o ineditismo de estudos envolvendo o óleo essencial da Croton conduplicatus, perceberam que existia ainda uma dúvida sobre sua atividade diante de microrganismos patogênicos. Dessa forma, o grupo conseguiu contribuir com o conhecimento sobre as plantas endêmicas do bioma caatinga e ainda com as pesquisas de alternativas terapêuticas contra infecções causadas por microrganismos resistentes a antibióticos convencionais.
Testes em andamento

Wilma conta que as testagens realizadas pelo grupo ainda são iniciais e que precisam ser ampliados para testes de toxicidade in vitro e in vivo, testes pré-clínicos e clínicos, antes de entrar em larga escala para o tratamento de doenças infecciosas. A partir dos resultados com testes mais avançados de segurança e eficácia, poderão entrar em contato com indústrias farmacêuticas que tenham interesse em produzir fórmulas que tenham aplicação no tratamento de infeções causadas pelos microrganismos estudados.

A patente protege e estudo, garantindo que o grupo de pesquisa consiga pensar nos próximos passos para entregar um produto farmacêutico efetivo à população. “Nosso grupo pretende estudar formulações tópicas, principalmente para o tratamento de feridas contaminadas por estes microrganismos, via parcerias dentro da própria UEPB, envolvendo o PPGCF, bem como a realização de testes clínicos via parceria com hospitais universitários que tenham programas com pacientes reais em condição de participarem das avaliações”, afirmou Wilma Rocha.

Sistema Híbrido Nanoestruturado

O pedido de patente do Sistema Híbrido Nanoestruturado de Papaína e Nanoargila Sintética foi protocolado no INPI sob o número BR 10 2023 015808 0. É uma inovação que promete revolucionar o tratamento de lesões teciduais contaminadas e acelerar a cicatrização. O sistema pioneiro oferece um aumento crucial na estabilidade da papaína, graças à sua incorporação em nanoargila sintética. A composição farmacêutica resultante, na forma de um filme de acetoftalato de celulose e poloxamer, é uma abordagem inovadora para promover a cicatrização de feridas e tratar lesões contaminadas em seres humanos.

A pesquisa foi um esforço de equipe, tendo como envolvidos os inventores Kaline de Araújo Medeiro, egressa do mestrado do PPGCF; os docentes, Bolívar Ponciano Goulart de Lima e Dayanne Tomaz Casimiro da Silva; os mestrandos Lívia Maria Coelho de Carvalho Moreira e Kevin da Silva Oliveira; e a pesquisadora externa Liliane Rocha Nunes. O professor Bolívar explicou que Liliane faz parte da equipe do projeto aprovado no Programa Centelha. A partir deste, foi criada a startup Árida Pharma, onde a pesquisadora está inserida. O Programa Centelha é uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) que visa estimular a criação de empreendimentos inovadores e disseminar a cultura empreendedora no Brasil.

Bolívar Ponciano conta que a pesquisa que resultou no pedido de patente começou em agosto de 2021, com anseio de desenvolvimento de uma formulação com atividade terapêutica para ser utilizada em feridas contaminadas. Para isso, utilizou-se uma enzima chamada papaína, que detém várias atividades terapêuticas, como cicatrizante, antimicrobiana e anti-inflamatória. “No entanto, esta enzima, quando exposta a determinados agentes, facilmente perde a atividade enzimática, o que compromete a sua ação terapêutica. O objetivo do estudo foi garantir a atividade enzimática da papaína e viabilizar a aplicação da enzima através da incorporação em um sistema híbrido nanoestruturado, para depois incorporá-lo em um filme polimérico utilizado como curativo”, explicou o pesquisador.

O objetivo de registro patentário surgiu ao longo da pesquisa, segundo o professor Bolívar, quando a equipe percebeu a novidade e atividade inventiva do estudo em relação aos produtos que já estavam descritos na literatura e comercializados no mercado farmacêutico.

No momento, a pesquisa encontra-se em andamento no âmbito de testes in vitro, na fase de testes antimicrobianos da formulação frente a bactérias que comumente infectam feridas. Posteriormente, serão realizados testes in vivo em ratos de laboratório para avaliar o impacto da formulação sobre o processo de cicatrização de feridas e, em sequência, “ansiamos a possível aplicação em testes clínicos pilotos com humanos em unidades hospitalares como o Hospital Universitário Alcides Carneiro da UFCG para avaliar a sua aplicabilidade nas feridas cutâneas”, relatou o professor Bolívar.

Texto: Juliana Rosas
Fotos: Divulgação